PERFORMANCE MEMORIALÍSTICA DA LITERATURA CANTADA: A FORÇA DA ORALIDADE NORDESTINA
Andréa do N. M. Silva – UNEB/UEFS
Os primeiros arquivos ou bibliotecas do mundo foram o cérebro dos homens
KI-ZERBO, 1982:181
(...) expressão e fala juntas, no bojo de uma situação transitória e única. A performance transmite-se assim num campo dêictico particular, jamais exatamente reproduzível (...)
ZUMTHOR, P., 1997:219
Esta comunicação se constitui dos resultados parciais de uma pesquisa sobre a oralidade e a memória performática da literatura cantada, especialmente manifesta em Festivais de cantorias, repentes e desafios, realizados no Nordeste brasileiro nos últimos anos, pesquisa vinculada ao NUPECPS (Núcleo de Pesquisa e Extensão da Cultura Popular Sisaleira), junto à UNEB, Campus XIV, Conceição do Coité/BA.
Os textos orais, ainda em estado latente, ainda sob frágil estrutura, em processo de construção, dentro dos espaços recônditos do cérebro humano, passam por um processo muito rápido de elaboração, engrenagem que se desenvolve durante alguns poucos segundos antes do ato performático da fala. A rapidez de que nos fala I. Calvino em suas Seis propostas para o próximo milênio (1997) permeia todo o caminho da confecção mental do texto oral. Entra em cena a experiência poética do labor constante quanto à construção literária, a capacidade imagética dos seus “engenheiros” e também a predisposição para o improviso. Talvez a performance seja o instante mágico dentro do qual todo esse processo de criação e reelaboração criativa se desenvolve. O palco onde todo esse espetáculo se engendra, hoje, pode ser a feira (em suas diversas roupagens), como a praça pública ou mesmo os Festivais de cantoria e repente. Tomemos o último espaço como exemplo.
A começar pela estrutura de um Festival dessa natureza, percebe-se que o improviso é a tônica motriz desses eventos, geradora do embate intelectual/criativo entre os participantes. Dentro desses Festivais, a oralidade performática é colocada como centro, ao redor da qual se realizam os desafios. Não há papel ou textos escritos nos quais os participantes possam se pautar. Há, sim, as imagens em processamento do texto oral, ainda resguardadas e em nascimento nas mentes dos poetas/cantadores e assim também nos assevera Ki-Zerbo, ao afirmar que“antes de colocar os pensamentos no papel, o escritor ou o estudioso mantém um diálogo secreto consigo mesmo” (1982:181-182). Se esta comunicação pode estar sendo proferida agora é graças ao trabalho de organizadores desse tipo de festival e/ou do empenho de pessoas que gostam das manifestações populares da cultura e que se propõem a registrar (em áudio, vídeo, transcrições...) os atos da fala cantada dos poetas do improviso, caso contrário, da mesma forma volátil e escorregadia através da qual a fala se processa e se propaga no ar, o mesmo acontece com o seu desaparecimento e o seu conseqüente esquecimento. Entra em ação, aqui, o trabalho da memória, fragmentada em diversos formatos (humana, em áudio, em vídeo, informatizada...), porém reconstrutora e responsável pela perpetuidade da fala, da voz de poetas entoadas em meio a assirrados embates poéticos durante um desafio (ZUMTHOR, P., 1993:142).
O som desses espetáculos precisa ser resguardado, tanto quanto a imagem criada nesses encontros; uma sem a outra não dá conta da totalidade desses eventos. Um bom exemplo da importância de se registrar imagem e som de qualquer manifestação é o grande crescimento que vem tendo a indústria dos clipes musicais: som e imagem em pé de igualdade quanto a sua importância. Pena que a tecnologia não nasceu em nós a tempo de termos registrado tantas performances populares na época áurea do seu glamour! Mas, hoje, podemos recorrer aos diversos recursos que a técnica nos oferece em tempo de preservar, para a posteridade, muitos relatos memorialísticos e performáticos que um dia nossos atores sociais encenaram não só com o intuito de criar museus ou cemitérios de antigas culturas, mas para promover, vitalizar e atualizar as nossas produções culturais, pois estas contam um pouco (ou muito) das nossas Histórias e histórias que precisam ter assegurado o seu direito à existência, tanto em lembranças presentes em ricos arquivos de oralidades e performances, quanto em cores, texturas e gestos, num ato crescente da memória viva composta de futuros, passados e presentes.
O eco do passado se torna presente, não se perde ou se apaga, antes, torna-se mais vivo a cada nova forma de reelaborar a cultura e suas manifestações. As quadrilhas juninas são um tipo de festejo tão antigo e, quanto mais os anos passam, mais atuais, novos e bonitos se tornam estes festejos, pois nada se apaga, nada se perde em se tratando da cultura, temos sim, um ato reconstrutor que renova a tradição, tornando-a mais significativa a cada tempo. A performance junina tem suas raízes fincadas no passado e a cada novo ano se modifica e se amplia, pois os tempos e os contextos evoluem, sem contar que o ser humano é sempre um buscante por novos modos de se representar, pois como afirma Michael Foucault em A ordem do discurso, esse ato de reconstrutor é como um “sonho lírico de um discurso que renasce em cada um de seus pontos, absolutamente novo e inocente, e que reaparece sem cessar, em todo frescor, a partir das coisas, dos sentimentos ou dos pensamentos.(...)” (1999:23). O que dizer, então, da literatura cantada, alicerçada sobre a oralidade movente, sem pátria, livre e sem rumo certo?
A literatura cantada, ritualizada pelas feiras, mercados, ruas, praças e cidades em todo país e, quem sabe, em outros países, demonstra a força que a voz possui dentro de uma sociedade tão diversa, composta por mendigos, maltrapilhos, sem-teto, sem-terra, sem-nada, intelectuais, marajás, magnatas, pobres, marginais, nós, outros e muitos outros, todos unidos por laços culturais, visíveis e invisíveis, cercados por vozes dialógicas, polifônicas que são capazes do quase impossível ato de nos traduzir. A voz – que até pode parecer fraca, fadada ao “simples” ato humano do esquecimento, elemento construtor de muitos jeitinhos brasileiros – veicula imagens, flashes de nós mesmos, também ecos de muitos de nossos passados, também tristes e velados instantes pluri e transculturais, pois traz até nós rostos de muitos de nossos irmãos de além-mares, aproxima-nos de fatos que, talvez, quiséssemos não ter conhecido.
A mesma voz que pode fazer chorar, muitas vezes causa o riso, a alegria de poder conhecer laivos de paz que possam vir, veiculados através dessas doces vozes, de outras pátrias, de outros de nós. A literatura oral é capaz disso: performática e movente, traz até nós ou nos leva até “los otros”, por meio de histórias e Histórias, proporcionando-nos reciprocamente os elementos de que precisamos para construir e reconstruir nossas memórias culturais, coletivas e individuais e muito universais.
Partindo do que Eni P. Orlandi nos diz: “O silêncio não fala, ele significa(...); é possível, no entanto, compreender o sentido do silêncio por métodos de observação discursivos” (1997:105), é curioso observar os espaços de silêncio que também compõem os Festivais de cantoria e desafio. Nesses momentos, a concentração que se estampa na face dos poetas é tamanha que nos dá a sensação de que aqueles são os preciosos momentos em que a memória é processada, acessada por meio dos motes criados pelo adversário e pronta para entrar em palco durante a composição mental de nova estrofe. Palavras, gestos, entonações, complexidade do texto poético oral, instantaneamente criado no flash do desafio, tudo isso em conjunto dá forma à performance que se mostra diante dos olhos. É a memória construindo outras memórias, é o instante mágico do nascimento das versões de antigos motes, de velhas cadeias de rimas, de tão conhecidos modelos estróficos do texto oral. São elementos inseparáveis, responsáveis pelo élan que fabrica a poética oral, casada com o gesto performático e com a memória movente de seus articuladores, memória que, por sua vez é tão individual quanto universal, mostrando para nós, admiradores da multiculturalidade sem fronteiras, que a literatura oral tem mais mistérios e segredos ainda por desvendar de que “nem desconfia a nossa vã filosofia” comparatista.
Se já no passado havia uma preocupação com as formas de leitura, em sentido lato, como nos conta Roger Chartier (1998:17) que “a leitura implícita do texto, literário ou não, constituía-se numa oralização, e seu ‘leitor’ aparecia como ouvinte de uma palavra lida. Dirigida tanto ao ouvido quanto ao olho, a obra brinca com formas e procedimentos aptos a submeter o texto às exigências próprias da performance oral” (...), então, eu bem que poderia, nesta minha interpretação do espetáculo/texto que um festival qualquer me fornece, analisar apenas o que é proferido enquanto arte literária oral, porém, neste trabalho, o que interessa mais e também são os momentos preciosos constituídos pela performance memorialística que se nos mostra em um momento único, irrepetível. Analisar a voz somente, sem a preocupação para com todos os elementos performáticos que estão para além, para antes e estão durante o processar do texto oral, é fazer um estudo pela metade, pois os elementos se articulam e se completam, formando um só espetáculo, que significa como um todo. Esse trabalho é possível de ser feito hoje, em se tratando do tipo de texto que se tem em mãos, no caso, um Festival de violeiros, pois podemos visualizar todo o processo de composição gestual e oral. No passado, quando do estudo de um texto que foi composto em voz ou em letra, há muito tempo atrás, fica difícil entender e analisar o mesmo como um todo, pois o que nos chega às mãos, hoje, é apenas uma parte do texto, ou seja, uma versão escrita de um texto oral antigo (ou vice-versa), todo o resto se perdeu, justamente a performance movente de que nos fala Paul Zumthor (1993:220), que engendrou o texto in loco.
Talvez, hoje, observando uma Folia de Reis, um Festival de cantadores, entre outras manifestações das nossas pluriculturais artes, possamos acessar uma memória longínqua, quem sabe provinda das terras européias, pejada de belas tradições orais e populares e esse acesso nos possibilita reelaborar as nossas culturas, reconstruir os nossos esquecidos rituais, sem nos preocuparmos, muito ou pouco, com a origem dessa memória performática, pois o que interessa nesses dias é a reconstrução, é o misturar de cores entre as artes e as culturas, não interessando muito mais a origem cronológica e com certidão de nascimento e autenticidade, tanto porque o mundo não é composto por um só tipo de “terras e gentes”, por isso, talvez com o misturar possamos dizer o indizível e traduzir o intraduzível de nós/outros mesmos.
CALVINO, Ítalo.Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.
CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. Trad. Mary Del Priori. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2. ed. 1998.
FOUCAULT, Michael. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de A Sampaio. São Paulo: Ed. Loyola, 1999, 5. ed. (Col. Literaturas filosóficas).
KI-ZERBO. História da África I: metodologia e pré-história da África. São Paulo: Ática; UNESCO, 1982.
ORLANDI, Eni P.As formas do silêncio: no movimento dos sentimentos. São Paulo: Ed. da UNICAMPI, 1997, 4. ed. (Col. Repertórios).
ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Trad. Jerusa Pires Ferreira, Mª. Lúcia D. Pochat, M.ª Inês de Almeida. São Paulo: Ed. HUCITEC, 1997;
_____. A letra e a voz: A “literatura” medieval. Trad. Amálio Pinheiro, Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.